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Forma de Vida

mulheres

Um “Estranho” Modo de Vida

Há mais de 2000 anos, em Tongobriga, uma mulher, pertencente ao povo a que os romanos haveriam de chamar Callaeci Bracari, perdeu uma pequena, mas belíssima joia de ouro, que jamais encontrou, impedindo-a de usar a outra arrecada, que com essa fazia par. Teria sido fabricada ainda antes de terminar o século III a.C.. E não seria, certamente, o único adereço usado pelas habitantes do povoado. Porém, nem tudo, como o ouro, resiste à acidez dos solos.

Com exceção do traje que surge representado nas estátuas de guerreiros que se erguiam à entrada dos principais povoados dessa época, esses povos não nos deixaram outras representações ou descrições da forma como se vestiam, quer no dia-a-dia, quer em ocasiões especiais como aquela para a qual a desafortunada tongobricense se preparava. Teríamos de esperar pelo século I da era cristã para que o olhar dos romanos – nada imparcial, mas muito atento – nos legasse descrições mais coloridas e animadas da forma como se vestiam, viviam, conviviam e sobreviviam os que por aqui habitavam quando eles aqui chegaram.

“A maior parte usa couraças de linho”, “em combate, cingem a frente com uma banda”, “usam um pequeno escudo” e “o cabelo comprido à maneira das mulheres”, diz Estrabão, o autor romano que mais pormenores nos deixou sobre esses povos. Sobre as mulheres, diz ele que “usam saias e vestidos com adornos florais”. O que mais suscitou a sua atenção não foi, porém, o vestuário masculino ou os adornos femininos, mas os “estranhos” hábitos alimentares desses povos, a forma como conviviam, e, sobretudo, o seu caráter guerreiro e as suas crenças:

“Alimentam-se uma só vez ao dia” e “comem sobretudo carne de bode”. “Durante dois terços do ano alimentam-se de lande de carvalho. Secam-nas, trituram-nas, moem-nas e fazem com elas pão, que pode guardar-se durante muito tempo. Bebem também cerveja. Vinho, têm falta dele, e o pouco que logram, rapidamente o consomem em banquetes familiares”, diz ainda o mesmo autor sobre a alimentação deles.

“Dormem no chão”, “untam-se duas vezes ao dia” e “tomam banhos de vapor que fazem com pedras ao rubro”, diz-se sobre as suas rotinas. “Tomam as suas refeições sentados em bancos construídos ao redor das paredes, onde os convivas tomam os primeiros lugares segundo a idade e a categoria social”. “A comida circula de mão em mão” e, “enquanto bebem, bailam e fazem coros ao som da flauta e da trombeta”, dão “saltos no ar” e caem “de joelhos”, observa-se sobre a forma como convivem em grupo. “Fazem sacrifícios, observam as entranhas sem as arrancarem, examinam também as veias do peito e adivinham por simples apalpação. Fazem também augúrios observando as entranhas dos prisioneiros”, “cortam-lhes a mão direita”, “oferecem-na aos deuses” e “sacrificam bodes, prisioneiros e cavalos”. Hábitos que, na opinião dos romanos, faziam dos Calaicos um povo “rude” e “selvagem”.

Estes povos estariam prestes a perder essas caraterísticas. Aliás, só as teriam porque, “sendo longos os caminhos por terra e por mar, para chegar até eles”, “não tinham relações com os outros”, tendo perdido “toda a sociabilidade e humanidade”. Passariam a “sofrer menos deste mal, em virtude da paz e da presença dos romanos”, dizem, senhores de si, estes últimos.

Para uns, o romano passaria a ser uma fonte de admiração: ser “um deles” seria uma legítima aspiração. Para outros, isso constituiria uma inaceitável negação da sua identidade. Para outros ainda, apenas uma estranha forma de vida. Para todos, a transformação seria em breve uma realidade. E todas as resistências e inércias seriam vencidas.