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Santa Maria do Freixo

Freixo - Marco de Canaveses

A paróquia medieval

Nesta região, a história da maior parte das paróquias e freguesias escreve-se com as mesmas palavras com que se compõe a história da formação e desenvolvimento das villae do período a que convencionamos chamar da “Reconquista Cristã”.

A villa tem um significado diferente da vila moderna. Designava inicialmente uma grande exploração rural na qual se incluíam a residência do seu proprietário e respetiva família (uilla urbana), as habitações dos trabalhadores rurais e demais construções associadas à exploração da propriedade (uilla rustica) e o conjunto de terras que compunham a propriedade (fundus). Embora nem sempre isso aconteça, algumas delas já dispunham de uma igreja própria nos inícios do século X.

Muitas das igrejas destas villae estão na origem dos posteriores templos paroquiais. E os seus territórios, não raramente coincidentes com um determinado vale – ou seja, todo o espaço cujos habitantes partilham as mesmas águas – estão na origem da configuração de muitas das atuais freguesias. Estes elementos comuns – a mesma igreja e as mesmas terras em redor da mesma linha de água, a par da submissão a um mesmo proprietário ou senhor – estão na base da criação dos laços de solidariedade e sentimento de pertença a uma mesma comunidade de vizinhos / fregueses que distingue cada paróquia / freguesia de todas as que a rodeiam.

A paróquia e freguesia de Santa Maria do Freixo é, porém, um caso singular. Daquelas exceções que confirmam a regra. As villae referidas na mais antiga documentação medieval, tais como Magães, Esmoriz, Fontes ou Covas, esta última já referida em 1068 – desde sempre os mais populosos lugares da freguesia, quase todos eles com origem em pequenas explorações agrárias de época romana, cada um em seu pequeno vale, deram origem a meros lugares que aparentemente nunca chegaram a dispor de igreja própria, e foram depois integrados na freguesia do Freixo. Uma freguesia cuja igreja se situa num lugar que, durante largos períodos da sua história, pouco mais teve do que a igreja, já que a sua situação topográfica, em lugar elevado, a pobreza dos seus solos e a ausência de água, nunca permitiram que aí se instalasse uma comunidade agrícola muito numerosa.

O facto de o nome de Tongobriga – ainda em uso nos finais do século VI – ter sido votado ao esquecimento e ignorado no momento de designar a paróquia cristã, sugere ter havido uma descontinuidade entre uma e outra. Já a opção pela acrópole de Tongobriga – o centro do antigo perímetro amuralhado – para aí se instalar o templo paroquial, sugere, pelo menos, que se manteve a tradição e memória da importância e significado desse espaço.

As sepulturas escavadas na rocha, dispersas e isoladas, que desde há muito se conhecem no Freixo, sem qualquer conexão com a igreja paroquial, e que podem ser datadas de um momento anterior à constituição da paróquia medieval, sugerem que durante um período relativamente longo – entre os séculos VII e IX – a igreja, se existia, não era, ainda, o local eleito pelos habitantes locais para aí sepultarem os seus mortos. Habitantes esses que, certamente muito escassos, não deveriam sequer estar concentrados num núcleo a que se pudesse dar o nome de aldeia.

A implantação da igreja atual – que recuperou muros romanos, como o que ainda hoje marca o arco triunfal e a transição da nave para a capela-mor – e a configuração inicial do adro – também ele desenhado com base nos muros romanos que existiam no local – sugerem uma fundação muito antiga, dos primórdios da “Reconquista”, possivelmente de finais do século IX ou inícios da centúria seguinte. E as próprias dimensões desse primitivo adro – que tinha doze passos contados a partir da fachada – fazem lembrar, precisamente, as fundações relacionadas com as presúrias que se seguiram à integração desta região nos domínios da monarquia asturiana.