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A Necrópole

arqueologia

A Necrópole

Sepultura com urna cinerária do séc. I d.C. (RW)Com a morte, os corpos regressam à terra mater. Mas, creem os romanos, as almas permanecem. Da vida que os defuntos levaram, haverá consequências para o seu destino. Aos que ficam, compete zelar pelos espíritos. Desse zelo – ou da ausência dele – dependerá a natureza e a ação dos mortos no mundo dos vivos: eles podem transformar-se em fantasmas noctívagos, verdadeiros pesadelos, ou em presenças agradáveis e benéficas. Eis as convicções que determinam a forma como se tratam os mortos e se escolhem os locais para lhes dar nova morada.

As primeiras notícias de descoberta de sepulturas romanas em Tongobriga remontam aos séc. XVIII e XIX. Mas só na década de 80 do séc. XX foi possível identificar e escavar um dos núcleos da necrópole, junto ao atual cemitério. Já no séc. XXI, foi identificado um outro núcleo, mais antigo, nas proximidades das termas.

Embora os povoados de grandes dimensões, como Tongobriga, pudessem ter mais de uma necrópole, até agora só foi aqui identificada uma, com diferentes núcleos que sugerem uma utilização preferencial de um ou outro espaço em diferentes épocas. Para os mortos foi reservada uma extensa área – devidamente separada do perímetro habitado pela muralha – que se estende por centenas de metros da encosta nascente, ao longo da principal estrada. Garantia-se, desta forma, que os mortos não cairiam no esquecimento e manter-se-iam sempre perto do olhar dos viandantes, a quem se pedia que lhes desejassem que a terra lhes fosse leve: sit tibi terra levis.

Crentes na vida para além da morte, os romanos depositavam oferendas nas sepulturas. Algumas dessas oferendas – que, dir-se-ia em tempos modernos, têm um caráter utilitário – parecem destinadas a garantir a satisfação das necessidades básicas do defunto: jarros, potinhos, copos e pratos, que em nada se distinguem das peças usadas no quotidiano, são as mais comuns. Outras, como os lacrimários, mais íntimas, quase nos permitem reviver o sentimento de dor de quem perdeu um ente querido. Outras ainda, são invulgares objetos de luxo, sinais de que a hierarquia social se mantém no outro mundo. Como se pudessem ter necessidade de pagar a passagem para o além, a alguns dos falecidos eram deixadas moedas. Não fosse o barqueiro exigi-las…

No mundo romano também se praticou a inumação dos corpos. Mas todas as sepulturas até agora identificadas em Tongobriga são de cremação. Quanto mais próximas da muralha, mais antigas são as sepulturas. As primeiras, datáveis de meados do séc. I d.C., a escassas dezenas de metros das primeiras casas, são simples covachos abertos no solo, nos quais se deposita a urna que continha os restos da cremação e um ou outro pequeno objeto, na maioria dos casos adereços da roupa que o defunto usava. Muito perto destas, foram também identificadas sepulturas de finais do séc. I e inícios do séc. II, em caixas quadrangulares definidas por tegulae, contendo apenas uma ou duas peças de terra sigillata. As sepulturas situadas mais longe das muralhas, e como tal, mais longe do mundo dos vivos, são datáveis do século IV d.C. e contêm conjuntos mais ou menos numerosos de peças de cerâmica comum e por vezes também moedas.Sepultura com espólio funerário do séc. IV d.C. (APF)