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A vida quotidiana

Ambiente familiar

A vida quotidiana

Sobre a vida quotidiana da maioria da população que, em época romana, vivia em Tongobriga, não podemos ter a veleidade de pensar que conheceremos os seus detalhes ou que conseguiremos reconhecer os seus objetos através da arqueologia.

Não terá sido sequer uma pequena minoria que alcançou a riqueza e o estatuto necessários para se poderem dar ao luxo de se deixarem de preocupar, por um minuto, com a mais básica luta pela sobrevivência diária, pelo que tudo aquilo que se possa escrever sobre a vida quotidiana do cidadão romano, quer ao nível da atividade doméstica entre as quatro paredes de uma domus, quer ao nível da vida em sociedade com a ida às termas, ao forum ou ao teatro, não passará do retrato de uns poucos afortunados.

Mas é sobre esses – os que aderiram a um novo modo de vida e tiveram posses para aceder aos bens materiais, móveis e imóveis, que revelam essa mudança – que a investigação arqueológica nos transporta, quando nos mostra as casas, as ruas e os edifícios públicos – sobretudo forum e termas – frequentados entre os séculos I e V da era cristã.

Se, como é hábito dizer, a nossa casa reflete o que somos, a mudança na vida quotidiana de alguém que passa de uma cabana circular com menos de 20 m2 para uma grande domus que chega a ultrapassar os 300 m2, deve ter sido brutal.

Mas nem mesmo as domus mais ricas de Tongobriga chegam ao luxo que se ostenta noutros pontos do Império. Já dispunham de água – recolhida no tanque do impluvium – mas em nenhuma se encontraram sinais de latrinas privadas; já dispunham – algumas delas – do conforto do soalho de madeira, mas nenhuma revela compartimentos aquecidos com hipocausto, ou termas privadas, que também as havia noutros locais; chegam a ter quatro cubicula, mas nenhum deles – nem sequer o triclinium – com pavimento em mosaico; a decoração parece resumir-se ao estuque pintado, sem sinais de estatuária ou materiais nobres.

As mudanças no quotidiano da vida doméstica revelam-se aos arqueólogos sobretudo através de uma grande diversidade de materiais cerâmicos, que vão desde as peças comuns de armazenamento e do vulgar serviço de mesa ao luxuoso conjunto de louças importadas, que nos transportam em pensamento até às rotineiras três refeições (ientaculum, prandium ou cibus meridianus e cena) que preenchiam o dia-a-dia do cidadão romano. Da sua vivência religiosa íntima e privada, cumprida num qualquer lararium, chegaram até nós apenas pequenos amuletos e dedicatórias em altares domésticos.

Não é, porém, na vida privada, mas sim na frequência dos espaços públicos, que melhor se cumpre essa condição de cidadão. Ao romano não bastava sê-lo, era preciso, também, parecê-lo. E, sobretudo, mostrá-lo. É, pois, essencial a ida às termas públicas, ao forum, e aos edifícios de espetáculos, quando eles estão disponíveis.

É nos espaços públicos, sob o olhar atento dos seus pares, que faz sentido, no modo de vida do romano, o desfrutar do ócio e dos prazeres da vida, a exibição do luxo ou a ostentação do poder que se possa ter alcançado.

Inebriados pela monumentalidade das termas e do forum, os habitantes de Tongobriga, feitos cidadãos de Roma, deverão ter incluído nos seus hábitos quotidianos a sauna nas termas públicas e a deslocação ao enorme espaço de sociabilização que o forum constituía. Cumpria-se, assim, a função política e social dos edifícios públicos: ao passarem a fazer parte do quotidiano, tornaram-se não só demonstrações públicas de poder, mas também eficazes formas de controlar a população que assim se sentiria verdadeiramente romana.