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As termas públicas

Termas Públicas

As termas públicas

Embora nunca a população local tenha deixado de conviver diariamente com umas enigmáticas e monumentais ruínas que sempre se mantiveram visíveis no sopé da colina onde se erguera Tongobriga, só as escavações arqueológicas aí realizadas na década de 80 do século XX permitiram perceber a verdadeira natureza do edifício a que tinham pertencido.

As suas abóbadas de cobertura mantiveram-se quase intactas, pelo menos em parte, até meados do século XIII. No século XVI, ainda eram conhecidas como “Ermida de Nossa Senhora a Velha”, talvez em resultado da sua reutilização como templo cristão. A partir do século XVII, na sequência da Contra-Reforma católica, passou a designar-se “Mesquita”, mais tarde ainda “Capela dos Mouros” e “casa dos seus falsos deuses”. Hoje sabemos que originalmente não se destinava a local de culto, embora, no imaginário popular, tão monumental construção não pudesse ter função menos nobre que essa. Tratava-se das termas públicas de Tongobriga, erguidas no último quartel do séc. I depois de Cristo.

A sua localização, extramuros e com acesso direto, por escadas, de e para o imenso recinto fechado que lhe está adjacente, além de mostrar que os seus principais destinatários seriam os que se deslocassem ao forum – fossem eles habitantes locais ou não – não podia ser mais reveladora do seu significado.

Com efeito, ao contrário do que acontece no perímetro amuralhado – dentro do qual o acesso a água só seria possível com recurso a abertura de poços – na área em que se situam as termas existem nascentes e linhas de água, o que garantia a disponibilidade de um recurso que era essencial para o seu funcionamento.

Porém, sabemos hoje que o abastecimento de água às termas romanas de Tongobriga fazia-se com recurso a uma cisterna em que se recolhiam as águas pluviais – que forneciam o frigidarium e o caldarium – e a uma canalização, em grande parte subterrânea, que conduzia a água proveniente de nascentes situadas do outro lado do forum até à natatio.

Não foi, portanto, o acesso direto a água que determinou a localização das termas. A sua implantação, com uma carga simbólica extremamente forte, teve como intuito substituir o balneário castrejo, inutilizando-o e cortando-lhe o acesso, marcando de forma muito expressiva a adoção de um novo modo de vida, de acordo com os padrões do cidadão romano, para quem a frequência das termas representava muito mais do que um mero hábito de higiene pessoal.

A construção das termas implicou igualmente a desativação do fosso “defensivo” que acompanhava, pelo exterior, o perímetro amuralhado – se é que ele já não havia sido desativado antes – e que foi integrado no sistema de escoamento de águas dos esgotos das termas romanas, através da abertura de uma estreita canalização no fundo do fosso.

Todo o edifício se enquadra no espaço correspondente a um actus quadratus e está construído com base em módulos de 5 pes de 29,6 cm. cada um: como exemplos, podem apontar-se o frigidarium, que tem 3 x 8 módulos, o tepidarium e o caldarium, que têm, cada um, 4 x 3 módulos, este último incluindo duas banheiras de 3 x 1 módulos. As fornalhas ocupam uma área de 6 x 3 módulos e o corredor de serviços, 10 x 2. O espaço da natatio ocupa 9 x 8 módulos, neles incluído o tanque central, com 6 x 5.

Ser romano… usando as termas

Uma vez chegados às termas, vindos diretamente do forum ou não, os utentes teriam acesso ao vestibulum. Daí poderiam aceder ao apodyterium, uma sala munida de hipocaustum, que pelo menos no inverno seria aquecida. Se necessário, dispunham de foricae, situadas num anexo que poderia servir não só os utentes das termas, mas também os que frequentassem o forum.

Depois de deixarem as suas roupas nas prateleiras situadas a meia altura, mesmo acima dos bancos que percorriam as paredes, podiam entregar outros valores – anéis, pulseiras, colares, dinheiro, etc. – aos capsularii, escravos ao serviço das termas. Os mais desconfiados podiam pô-los à guarda de um servo que os tivesse acompanhado. Era então altura de se untarem e decidirem se começavam por uma ida ao caldarium para um banho quente, não esquecendo, obviamente, a paragem no tepidarium – sala seca e aquecida – para que o corpo se pudesse adaptar com mais facilidade ao ambiente quente e húmido do caldário; ou por uma sessão de exercícios físicos (alguma corrida, exercícios de ginástica, algum pugilato ou luta livre…) na palaestra, um espaço de ar livre com chão em opus signinum.

Após o exercício físico, com a ajuda do strigilum, os óleos com que se tinham untado, assim como o suor provocado pelo esforço físico, eram raspados para pequenos recipientes. Este ato de raspagem aumentava a temperatura do corpo, pelo que não seria estranho que de seguida os utentes se dirigissem ao frigidarium para um banho frio. Outros iriam para o tepidarium suar um pouco mais, seguindo depois para o caldarium.

Este circuito e estas atividades no interior do edifício e na área da palestra não tinham uma sequência obrigatória. Aliás, durantes as várias horas de permanência nas termas, os utentes usavam todas as salas por mais de uma vez, alternando entre o exercício, os banhos quentes e os banhos frios. Conversar era uma atividade constante, assim como comer e beber.

Em Tongobriga, o período de verão nas termas tinha ainda mais uma atividade do agrado dos utentes: os banhos de água fria, ao ar livre. A atividade realizava-se na natatio, piscina que ocupava um espaço de 158m2 e tinha capacidade para 112.320 litros de água.

Importantes nas termas eram as zonas de serviço: corredores e áreas de aquecimento da caldeira que servia os alveii com água quente, bem como a área dos praefurnia dos hipocaustos do tepidário e do caldário; armazenamento de lenha; controlo de águas e tubagens; manutenção de temperatura das águas da caldeira vertical que abastecia os tanques do caldário; manutenção do fogo, através de portas metálicas, nas fornalhas que aqueciam os fornos, os quais, por sua vez, aqueciam o chão e as paredes do caldário e do tepidário; limpeza dos fornos e fornalhas; limpeza das salas; renovação de águas do frigidarium e natatio, etc. eram tarefas executadas por dezenas de escravos, cujo movimento se fazia fora do alcance do olhar dos utentes.

Excetuando a palaestra e a natatio, que eram a céu aberto, todo o edifício das termas era coberto: as áreas de serviço (corredores e zona das fornalhas) tinham pesadas abóbadas de opus caementicium. Todas as outras eram cobertas por telhado assente em travejamento de madeira.