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No tempo da dinastia Júlio – Cláudio

Mercado Romano

No tempo da dinastia Júlio – Cláudia

Bastará pegar nas pitorescas expressões usadas por Estrabão, um autor que viveu e escreveu na época de Augusto, o primeiro Imperador, para perceber que, nessa altura – e por algumas gerações mais – nem os povos autóctones se sentiam, ainda, romanos, nem os romanos os viam, ainda, como tais. Haveria de terminar a dinastia dos imperadores júlio-cláudios – entre Augusto e Nero (27 a.C. – 68 d.C.) – e assim continuaria a ser.

Terá sido uma época de grandes contradições, ou não fosse enorme o contraste entre tudo aquilo em que a mudança foi mais precoce e todas as outras coisas em que prevaleceram a inércia e a resistência próprias de todas as transformações profundas

Já se usa moeda, mas ela ainda é relativamente escassa, pelo que deveria ainda prevalecer, como diz o próprio Estrabão, “a troca de mercancias”. Já se nota a presença de materiais de importação, os quais, a par da presença de ânforas, são sinal da integração nos circuitos comerciais do Império. Mas elas são, sobretudo, peças de exceção ou até luxo, como a terra sigillata, que deveriam constituir itens de prestígio e escapar ao comum dos tongobricenses.

Ter-se-ão operado mudanças significativas ao nível do vestuário e dos adornos pessoais, já que ocorrem com alguma frequência adereços datáveis dos inícios da era cristã, sobretudo fíbulas.

Mas é ao nível da arquitetura, doméstica e não só, que as resistências são mais evidentes ao olhar de qualquer um: nos primeiros dois terços do século I d.C., continuam a construir-se casas de planta circular, com ou sem vestíbulo, integradas em núcleos familiares; continua a usar-se o balneário da “pedra formosa”. E não há, ainda, sinal da utilização de telha na cobertura das construções.

Entre vários outros sinais de continuidade, regista-se a predominância, na epigrafia tongobricense, dos antropónimos indígenas latinizados (Albura, Anceitus, Anicius, Atius, Catius, Medamus, Rufus), sinal óbvio de uma procedência regional dos habitantes locais, condicente com a total ausência de imigrantes e/ou cidadãos romanos que ostentem o tria nomina.

Na verdade, não existe nenhuma epígrafe cuja datação aponte para esta fase, o que constitui indício de que só mais tarde se daria a generalização do uso da língua latina na comunicação quotidiana. A própria manutenção do nome Tongobriga, de origem pré-romana, e a dedicatória ao Genio Tongobricense, divindade romana acompanhada de epíteto indígena de carácter tópico, são indicadores que apontam no mesmo sentido.

Devemos ter em conta que uma parte significativa da população deve ter-se mantido, durante algum tempo, à margem destas transformações, e as inércias foram certamente muitas. Quanto à pequena parte que passou a usufruir dessas mesmas inovações, é de crer que isso tenha constituído uma fonte de prestígio, de promoção do estatuto social e de ostentação. A curto prazo, os indivíduos que ainda não se comportassem como romanos, que não exibissem sinais evidentes de que comungavam do mesmo modo de vida ou que não partilhassem os mesmos objetos, passariam a desejar fazê-lo, sob pena de marginalização pelos restantes.

Mas até mesmo aquilo que nós interpretamos como “castrejo” poderá ser, já, o resultado da assimilação progressiva de gostos e hábitos sociais típicos do mundo romano, cuja fórmula inicial de absorção passou mais por uma “reinterpretação” do que por uma “aquisição” pura e simples.