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O fim das termas

Arqueologia

O fim do mundo? Ou apenas o fim das termas?

Um bispo, de seu nome Hydatius, da cidade romana de Aquae Flaviae – como Tongobriga situada sobre o rio Tâmega – legou-nos uma famosa Crónica que prenuncia o fim do mundo. Membro da elite hispanoromana de então e provavelmente descendente de um alto funcionário da Callaecia, Idácio de Chaves viveu no século V e, como tal, assistiu à chegada e instalação dos Suevos no noroeste peninsular e à consequente desagregação da administração provincial do Império.

Consciente de que as mudanças não eram apenas circunstanciais, legou-nos na sua Crónica o testemunho de uma sucessão de catastróficos acontecimentos que prenunciam o fim de uma era. Entre eles, até fenómenos naturais, como os terramotos, são vistos como prenúncios do Apocalipse. Um desses terramotos levou mesmo ao colapso das termas públicas de Aquae Flaviae. Com a queda das paredes do edifício termal romano, parecia querer cair também um estilo de vida e toda uma civilização.

Descendo o Tâmega, a escassas 60 milhas de distância, também pela mesma altura se celebrava em Tongobriga o modo de vida dos romanos com uma ida às termas públicas, até então ainda em plena utilização. Mas também aqui um dos símbolos maiores da civilização poderá não ter sido poupado aos cataclismos naturais, vistos como sinais do fim dos tempos.

Aquando das escavações arqueológicas que, nos anos 80, puseram a descoberto os corredores de serviço das termas, uma intrigante descoberta foi feita: no interior do corredor das áreas de serviço, foram exumados restos humanos e ainda um esqueleto de um cavalo, não se sabe se em relação um com o outro. Não terão sido enterramentos intencionais, mas sim o resultado de um acontecimento, brusco e inesperado, que os surpreendeu no interior do edifício sem hipótese de fuga: as paredes ruíram, sepultando-os sob toneladas de pedras e outros materiais de construção.

Através da datação por radiocarbono desses ossos, foi possível concluir que esse súbito acontecimento ocorreu entre os anos 280 e 440 da era cristã. Um intervalo de tempo demasiado largo para o podermos associar especificamente a qualquer um dos factos conhecidos para essa época. Não obstante, um intervalo que não só abrange o conturbado período de que se queixava o bispo Idácio, como também o momento – última década do séc. IV ou primeiros anos do séc. V – da derrocada, também ela súbita, das termas medicinais de Chaves. Demasiadas coincidências para estarmos a falar de motivos diferentes? Não o sabemos.

Certo é que, em Tongobriga, a queda, mesmo que parcial, da cobertura das termas na zona do corredor de serviço, inviabilizou o seu uso como termas, já que o edifício deixou de dispor das infraestruturas de produção de calor. Sem acesso às fornalhas, o edifício não pôde continuar a funcionar com banhos aquecidos depois dessa queda. O que não significa que tenha sido abandonado.

Com efeito, as escavações aí realizadas permitiram recolher materiais muito posteriores, entre os quais se destacam alguns fragmentos de “terra sigillata clara D”, fabricadas entre 560/580 e 620 d.C.. Estes indícios de continuidade da utilização do edifício, cuja abóbada de cobertura – pelo menos em parte – só terá ruído depois de 1247, fazem todo o sentido se pensarmos que os edifícios termais romanos, pela sua qualidade de construção e resistência, foram, com muita frequência, usados para fins diversos, nomeadamente como espaços de culto e até de enterramento, muito para além do fim do Império que lhes deu vida.

As convulsões – as da Terra e as da sociedade – dos inícios do século V não terão sido o fim do mundo. Nem de Tongobriga. Nem sequer das suas termas. Mas apenas o fim do seu uso original.