Horário: De terça a domingo. Das 09h00 às 17h30.

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Um edifício singular

Teatro

Um edifício singular

As escavações arqueológicas realizadas no subsolo da igreja de Santa Maria do Freixo revelaram, inicialmente, aquilo que seria de esperar: os restos mortais dos que, ao longo de vários séculos, habitaram na freguesia e foram sepultados no interior do templo.

A convicção de que a salvação divina implicava que o defunto tivesse a igreja – ou o seu adro – como última morada neste reino, transformou os templos paroquiais em cemitérios. No Freixo, fruto do peso da tradição e da tardia construção do cemitério paroquial, este costume perdurou até mais tarde do que na maioria das paróquias: o último enterramento na igreja de Santa Maria realizou-se há pouco mais de um século, em 1905.

Mas uma grande surpresa se escondia sob a igreja atual e os seus mortos: o intenso colorido de um mosaico geométrico com motivos de caráter vegetalista que originalmente cobria um grande edifício, do qual se escavaram parcialmente três compartimentos cuja área total excedia os 215 m2. Restavam, em toda essa área, menos de 10 m2 de mosaico, os quais, apesar de tudo, nos permitiram perceber a sua organização e enquadramento.

Quer a configuração do mosaico (uma composição ortogonal de octógonos irregulares, secantes e adjacentes, determinando quadrados e hexágonos oblongos), quer os motivos que o preenchem (florzinhas em cruz, nós de Salomão, tabuleiros de xadrez, quadrilóbulos, entrelaçados, peltas e motivos ondulados) quer as suas cores e materiais (cinco cores de base – vermelho, amarelo, verde, branco e cinzento – em tesselas de calcário e barro) são comuns nos mosaicos romanos do Baixo Império.

O que distingue o mosaico de Tongobriga é o seu carácter único a nível local, o seu enquadramento urbano, as grandes dimensões do edifício que o recebeu e, em especial, a sua cronologia muito tardia.

Localizado no centro do perímetro amuralhado e no seu mais alto e proeminente espaço habitável e urbanizável, o edifício pavimentado a mosaico excede o dobro do espaço ocupado por qualquer outra das domus romanas de Tongobriga: duas características que apontam para um edifício incomum e com direito a lugar de destaque no contexto urbano do povoado

A sua construção implicou a demolição de uma domus, uma alteração substancial da malha urbana e da sua possível modulação e a afetação do espaço central do perímetro construído, onde se cruzariam os seus principais eixos viários. Sinal de que já terá sido construído no contexto de uma profunda alteração da fisionomia de Tongobriga.

Datáveis do século V – contemporâneos, portanto, do final do Império Romano, da emergência do reino suevo e da promoção de Tongobriga a uma das suas “paróquias”, no século VI – os mais antigos enterramentos realizados no interior do espaço amuralhado – tidos como sinal de cristianização – situam-se nas proximidades deste edifício pavimentado a mosaico, cujas paredes, pelo menos em parte, continuaram em uso até à construção do templo atual.

A partir da época a que se convencionou chamar da “Reconquista Cristã”, coeva da refundação do sítio, já não como Tongobriga mas como Santa Maria do Freixo, iniciou-se a utilização sistemática do espaço interior deste grande edifício (correspondente a toda a igreja e grande parte do adro atual) como cemitério, o que levou à destruição de uma parte substancial do mosaico que o cobria.